Música

13/06/2019 - 14:07:04

Nando Reis fica mais perto do público quando expõe no palco a alma das canções de Roberto Carlos

Show 'Esse amor sem preconceito' atesta que algumas releituras do cantor diluíram as emoções do repertório do 'Rei'.

Autor: Da Redação

 Feita na romântica noite de ontem, 12 de junho, a primeira apresentação carioca do show Esse amor sem preconceito já estava no terço final quando Nando Reis sentou no banquinho e – a sós no imenso palco da casa KM de Vantagens Hall – seguiu no violão o curso mineiro de Dois rios (Samuel Rosa, Lô Borges e Nando Reis, 2003) e, na sequência, deu voz à canção Como vai você (Antonio Marcos e Mário Marcos, 1972) com devoção à alma dessa apaixonante composição lançada na voz de Roberto Carlos.

Nando Reis canta 26 músicas no show 'Esse amor sem preconceito' — Foto: Mauro Ferreira / G1

Foi quando a plateia esboçou emoção e calor que pareceram rarefeitos em boa parte do show, cuja turnê nacional tinha sido estreada pelo artista paulistano em Belo Horizonte (MG) em 1º de junho.

Ficou claro que, ao entrelaçar o repertório de Roberto Carlos com o próprio cancioneiro no roteiro que totalizou 26 músicas na estreia carioca do show Esse amor sem preconceito, Nando ficou mais perto do público quando foi no âmago das canções de Roberto.

O show evidenciou vícios e virtudes do disco – Não sou nenhum Roberto, mas às vezes chego perto (2019), lançado em abril – em que Reis às vezes inventou moda ao abordar o repertório do Rei, chegando a cantar o tema religioso Nossa Senhora (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1993) sem a letra, com um "na na na" em ritmo de valsa, por ser ateu. Proeza que Reis teve o bom senso de não fazer no show, cujo bis incluiu Ilegal, imoral ou engorda (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1976), música ausente do álbum.

Como no disco, o ex-Titãs fugiu corajosamente do cover ao fazer no show algumas releituras de canções que nem sempre são de autoria de Roberto, mas que soam como sempre tivessem sido dele, Roberto.

Ao tentar tais releituras, Nando muitas vezes diluiu todo o sentimento que há em músicas como Abandono (Ivor Lancellotti, 1974), canção doída que Roberto associou instantaneamente ao nome dele ao regravá-la em 1979.

Apresentada com a récita de texto autoral de Nando, Me conte a sua história (Maurício Duboc e Carlos Colla, 1979) foi outro número em que Reis repetiu o erro do disco ao esvaziar toda a sedução dessa cantada em forma de canção.

Um dos achados do repertório do disco por ser uma das últimas boas "canções do Roberto", a angustiada Alô (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1994) se confirmou luminosa em cena e poderia até ter se comunicado mais facilmente com o público se não tivesse sido apresentada de supetão na abertura fria do show.

Os metais sintetizados nos teclados do músico norte-americano Alex Valley – integrante da poderosa banda intitulada NR4 (em alusão à banda RC9 de Roberto) e formada por Felipe Cambraia (baixo) com Walter Villaça (guitarra) e Pupillo Oliveira (bateria), produtor musical do disco – conectaram Alô ao soul e aos arranjos orquestrais que deram o tom da discografia de Roberto na primeira metade dos anos 1970.

Joia dessa áurea inicial áurea da obra adulta de Roberto, De tanto amor (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1971) foi lapidada por Nando no exato tom tristonho dessa canção lançada na voz macia de Claudette Soares.

À frente de cenário formado por moldura intencionalmente caída, símbolo da intenção do artista de nem sempre enquadrar o cancioneiro de Roberto nas tradições do Rei, Nando Reis soube construir um roteiro idealizado para contentar o público que estava ali mais para ouvir as músicas dele próprio, Nando, do que as canções do Roberto, ausentes da memória afetiva de quem não viveu os anos 1960 e 1970.

Para esse público, Reis enfileirou – entre uma ou outra música do repertório do Rei, como Amada amante (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1971), cheia de significados em show apresentado no Dia dos Namorados – uma série de composições que comprovaram, mais uma vez, a força de obra autoral que tornou Nando Reis uma espécie de Roberto Carlos pós-moderno do século XXI.

Foram lembrados todos os hits desse cancioneiro deliciosamente pop, com menções honrosas para Os cegos do castelo (1997), Segundo sol (1999), All star (2000), Por onde andei (2004), N (2006), Pra você guardei o amor (2009) e Só posso dizer (2016), balada recente que reiterou a vocação de Reis para ser um rei romântico da geração 2000.

Como a banda tem (a despeito da presença de Pupillo) essencialmente o mesmo toque da banda do show anterior do cantor, Jardim-pomar (2017), o show Esse amor sem preconceito soou por vezes déjà vu, sobretudo quando a banda pôs pressão e peso em canções como Relicário (2000) e Luz dos olhos (1996), número que culminou em jam com o toque infernal dos músicos.

No recreio (2000) também ganhou densidade instrumental com o toque heavy da guitarra de Walter Villaça, virtuose do instrumento, e soou natural porque Nando Reis é roqueiro romântico, como explicitou ao reviver Sou dela (2006).

Com ou sem o peso do rock, o amor deu o tom. Era Dia dos Namorados, mas canções de despedida, próprias e alheias, como Dessa vez (Nando Reis, 2000) e Nosso amor (Mauro Motta e Eduardo Ribeiro, 1977), também foram embutidas na trilha afetiva do roteiro.

Nosso amor, a propósito, sobressaiu pelo belo efeito cênico. Pareceu de início ser extensão do bloco de voz & violão, mas, quando toda a luz do palco se acendeu, a banda já estava lá e começou a tocar um arranjo que sobressaiu ao lado da orquestração ousada de Você em minha vida (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1976).

"São tantas emoções", gracejou Nando Reis ao falar do alcance da obra de Roberto Carlos na vida e no cancioneiro do cantor.

Sim, o show Esse amor sem preconceito até gerou algumas emoções, mas não tantas como poderia ter provocado se tivesse sido apresentado sob aura mais calorosa e com mais devoção à alma das canções. Talvez a senha para ativar essas emoções seja ir sempre no âmago daquelas canções do Roberto... (Cotação: * * * 1/2)

♪ Eis o roteiro seguido em 12 de junho de 2019 por Nando Reis na estreia carioca do show Esse amor sem preconceito na casa KM de Vantagens Hall na cidade do Rio de Janeiro (RJ):

1. Alô (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1994)

2. Segundo sol (Nando Reis, 1999)

3. Dessa vez (Nando Reis, 2000)

4. Amada amante (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1971)

5. As coisas tão mais lindas (Nando Reis, 1999)

6. All star (Nando Reis, 2000)

7. Me conte a sua história (Maurício Duboc e Carlos Colla, 1979)

8. N (Nando Reis, 2006)

9. Abandono (Ivor Lancellotti, 1974)

10. Pra você guardei o amor (Nando Reis, 2009)

11. De tanto amor (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1971)

12. Sei (Nando Reis, 2012)

13. No recreio (Nando Reis, 2000)

14. Sou dela (Nando Reis, 2006)

15. Só posso dizer (Nando Reis, 2016)

16. Você em minha vida (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1976)

17. Luz dos olhos (Nando Reis, 1996)

18. Dois rios (Samuel Rosa, Nando Reis e Lô Borges, 2003)

19. Como vai você (Antonio Marcos e Mário Marcos, 1972)

20. Nosso amor (Mauro Motta e Eduardo Ribeiro, 1977)

21. Relicário (Nando Reis, 2000)

22. Por onde andei (Nando Reis, 2004)

23. Os cegos do castelo (Nando Reis, 1997)

24. Todos estão surdos (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1971)

Bis:

25. Ilegal, imoral ou engorda (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1976)

26. O mundo é bão, Sebastião (Nando Reis, 2001)

Fonte: G1