Brasil

16/04/2018 - 05:59:00

Juiz natural do Vale do Piancó dá sentença em forma de poema em caso de disputa de sanfona, na BA

Nivaldo do Acordeom botou à venda uma sanfona que o músico Renato Cigano diz que é dele e que foi roubada de seu carro.

Autor: Redação do Portal

Uma sanfona é pivô de uma disputa judicial. O modelo italiano, fabricado nas décadas de 50 e 60, é tão bom que virou lenda entre os tocadores, tanto que tem dois sanfoneiros disputando o instrumento. Renato, conhecido como Cigano, tocou por seis anos com Elba Ramalho e teve a sanfona roubada em São Paulo. Lauro, amigo do Renato, tem uma loja de sanfonas, que foi assaltada em 2003. Lauro ficou sem 33 acordeons. Desde então ele fica de olho em anúncios para ver se alguma sanfona roubada dele vai ser revendida.  A decisão do juiz Teomar Almeida de Oliveira, da 1ª Vara Criminal da comarca de Senhor do Bonfim, que é natural da cidade de Nova Olinda, na região do Vale do Piancó.

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Um dia ele viu um anúncio de uma sanfona à venda em Senhor do Bonfim, Bahia, cidade considerada a capital baiana do forró. Não era uma das sanfonas roubadas de sua loja, mas ele reconheceu o instrumento que era de Renato Cigano. Mas o vendedor, Nivaldo do Acordeom, disse que comprou o instrumento de um amigo dele, um catador de papelão, que morava em São Paulo. O caso foi parar na polícia e na Justiça; numa sentença escrita em forma de poesia, o juiz deixou Nivaldo ficar com o acordeom provisoriamente, até que se decida em todas as instâncias quem é o dono da sanfona italiana. 

As gravações foram feitas nesta última semana em Senhor do Bonfim, com sanfoneiro o Nivaldo do Acordeon, que ganhou a causa; com o Delegado de Polícia, Felipe Neri, e o magistrado, que prolatou a decisão em prosas, denominada informalmente de “Habeas Fole”, para tirar a sanfona da cadeia. A matéria, que pode ir ao ar neste domingo, também terá a participação das cantoras paraibanas Lucy Alves e Elba Ramalho.

A disputa começou quando o sanfoneiro Renato Cigano, que mora em São Paulo, foi até a delegacia de Senhor do Bonfim para reivindicar a posse do instrumento usado por Nivaldo Amaro de Araújo, o Nivaldo do Acordeon. Ele teve a safona roubada há três anos e, após ver a sanfona de Nivaldo nas redes sociais, acreditou ser a mesma furtada. A sanfona foi “presa” na delegacia até o final da apuração dos fatos.

Nivaldo apresentou documento de compra e venda, comprovando a propriedade da mesma. Com a prova, concluiu-se o processo.

Admirador do som do instrumento e fã de Luiz Gonzaga e da cultura musical nordestina, o juiz Teomar disse que a ideia da poesia da Sanfona surgiu a partir de todo um contexto histórico da origem da sanfona, inserida em uma contenda jurídica, disputada pelos dois grandes sanfoneiros.

Natural do município de Nova Olinda-PB, ele ingressou na magistratura baiana em 2013, inicialmente na comarca de Jacaraci, e depois Itapicuru, com substituição em Coração de Maria. Em abril de 2017, chegou a Senhor do Bonfim, e, em menos de um ano, foi agraciado com o título de “cidadão bonfinense”, pelos vereadores da denominada "capital baiana do forró”.

Decisão

No embalo da emoção
Sanfoneiros pedem aquela sanfona velha
Que um dia já foi bela
Hoje ela é castigada, afastada da canção
Condenada a viver gelada
No banheiro da prisão

E o sanfoneiro engaiolado
Sem a voz, os dedos e o pulmão
Distante da sanfona velha
Seu maior bem de estimação
Espera que o Juiz diga qual o querelado
Que levará a sanfona do povo junto ao seu coração

Não há mais tempo de espera
Para uma decisão que preste
O povo está desolado
Por ver o maior símbolo do Nordeste
Que despontou numa tapera
Como um pássaro engaiolado

De tão simples instrumento
Das cantigas do sertão, xote, xaxado e baiãoPassou à relíquia sem documentoDe disputa encarecida, cobiçada no momentoQue chega a envergonhar o nosso Rei GonzagãoQuando disse outro dia que o jumento é nosso irmão

Pobre sanfona do povo
Pagando o que não deve
Como qualquer prisioneiro
Presa por ser a rainha do Nordeste e do Sertão
Não pode mais permanecer
Como adorno de banheiro de masmorra da prisão

Não sei quem é o proprietário
Mas, o possuidor do melhor documento (fls. 62)
É presumido o signatário
Dono daquele instrumento
Ficando com o direito
De recebê-la no peito como fiel depositário

Não decido por decidir
Mas, por a lei me permitir (art. 120, § 4º, CPP)
Colocar em suas mãos
Que outrora foi tirada, do povo e dos cidadãos
Sem piedade e compaixão
Aquela sanfona velha que imortalizou Gonzagão

Nilvado o direito é seu, como fiel depositário
Visto o seu opositor não ter provado o contrário
Até que se finde a contenda
Delegado me atenda
Como da outra vez foi buscar
A bela sanfona do povo, vá agora entregar

E para finalizar
Hei por bem declarar
Que fui competente para buscar
Sou também para entregarCumpra-se, sem titubear.

 

Fonte: Redação do Portal Vale do Piancó Notícias com Fantástico